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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Animaêh!!!


SeSsÃo AnImAdA

Agora é a vez de a animação tomar conta da tela do Cineclube Colorado. Na próxima quinta-feira, 26/05/11, às 20h, a exibição terá várias animações, curtas, desenhos... Tudo para esquentar a noite e deixá-la mais divertida. A sessão acontece no Bar do Pantera, um local para apreciar um bom tira gosto e bate papo com os amigos.
Vale à pena, então, curtir um friozinho assistindo filme!


Em cartaz: Sessão Animada!
Dia: 26/05/11
Hora: 20h
Local: Bar do Pantera
Rua Cel. Olímpio Cunha, Campo Grande, Cariacica -ES
(Próximo à BR 262, em frente ao Café Praça 8).


ENTRADA FRANCA!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Exibição especial no Chamusquim Bar

Mais uma sessão, mais um Bar ...

Dessa vez o Cineclube Colorado vai exibir no Chamusquim Bar, confira a programação:



Ponto Final
(18’47’’, 2009)
As últimas imagens, as últimas histórias e os últimos momentos do mais antigo terminal rodoviário de Vitória.   
Realização: GRAV – Grupo de Estudos Audiovisuais. 




"Papo de Botequim"  
(2004) de Allan Ribeiro, 20’.
Elenco: Freqüentadores de Botequins do Rio de Janeiro
Documentário bem humorado sobre a importância cultural e democrática dos botequins na cidade do Rio de Janeiro. 

Prêmios:
Melhor documentário em vídeo no Curta-se - Festival Luso-Brasileiro de Curtas Metragens de Sergipe 2005.
Melhor Documentário no Gramado Cine Vídeo 2005.
Melhor Documentário no Vide Vídeo 2005.
Melhor Vídeo Documentário e Roteiro em Documentário no NÓIA - Mostra Cearense de Vídeos Universitários 2004.

Quando? 20/05/11 (sexta-feira)
Que horas? 20h
Onde? Chamusquim Bar, Rua São Jorge, Oriente, Cariacica
(Próximo a Faesa de Campo Grande)
Quanto? Nada, entrada franca!!

Não vai perder essa né?

sábado, 14 de maio de 2011

Cineclube Colorado aprovado no Rede Cultura Jovem!

O Cineclube Colorado, que tem como objetivo democratizar o acesso a cultura cinematográfica, foi aprovado no Edital Núcleo de Criação do Programa Rede Cultura Jovem. Cada Núcleo de Criação receberá um apoio técnico e aporte financeiro para desenvolver suas atividades.
Através dessa conquista o Cineclube Colorado irá melhorar sua estrutura de exibição e atuar de forma itinerante no município de Cariacica. Além de exibições de filmes, o Cine Colorado promoverá um Encontro de Formação Cineclubista, previsto para o último sábado de maio, e um “Mini Festival de Cinema Capixaba”, que acontecerá em Agosto. Iremos comemorar, também, seus dois anos de existência com uma festa – Uma noite no Cinema, festa á fantasia.
Acompanhem o blog do Cineclube e fiquem ligados em nossas atividades.

A Rede Cultura Jovem
O PRCJ desenvolve ações de conexões virtuais e presenciais para potencializar as manifestações artístico-culturais das juventudes do Espírito Santo. De forma gradativa, será constituída uma rede de agentes culturais que mobilize e potencialize as criações e produções juvenis. A Rede Cultura Jovem é orientada pela lógica colaborativa, é comprometida com o respeito às diversidades, faz o reconhecimento das soluções locais para as questões culturais e estimula as expressões juvenis por meio das diferentes linguagens artísticas e das novas mídias.
As redes virtuais agregam atualmente milhões de jovens que, de forma contínua, trocam informações e constroem um imaginário independentemente dos meios de comunicação de massa. Para aqueles que ainda são avessos às novas tecnologias, esses jovens apenas trocam informações inúteis. No entanto, não se pode negar que se trata de um fluxo informacional com enorme capacidade de interação e de relacionamento social: as redes virtuais geram identificação e comprometimento entre pessoas, grupos e comunidades, configurando uma construção contínua de relações interpessoais e uma forma acessível para a visibilidade das mais diversas expressões culturais e para a difusão conhecimentos.

Acesse o Portal Yah! e conheça os outros contemplados

domingo, 8 de maio de 2011

A Pessoa é para o que nasce


Sinopse
Três irmãs cegas. Unidas por esta incomum peripécia do destino, Regina, Maria e Conceição viveram toda sua vida cantando e tocando ganzá em troca de esmolas nas cidades e feiras do Nordeste do Brasil. O filme acompanha os afazeres cotidianos destas mulheres e revela suas curiosas estratégias de sobrevivência, das quais participam parentes e vizinhos. Acompanha também, numa reviravolta inesperada, o efeito do cinema na vida destas mulheres, transformando-as em celebridades.

 
Três irmãs cegas tocam ganzás e cantam pelas ruas de Campina Grande, na Paraíba, em troca de dinheiro. A história de vida das “Ceguinhas de Campina Grande”, como são conhecidas, chamou a atenção do diretor Roberto Berliner, que produziu um curta-metragem de seis minutos – “A pessoa é para o que nasce” – para o Projeto Som da Rua, sobre músicos anônimos. O minidocumentário daria origem ao longa-metragem homônimo (TvZero, 2003, 84 min.), produzido entre os anos de 1998 e 2003.
Ao acompanhar o cotidiano de Maria Barbosa, Regina e Conceição, Berliner não apenas interferiu na realidade e transformou a vida das irmãs com a elaboração do filme, mas permitiu-se também ser tocado no decorrer da história.
(Eduardo Henrique Américo dos Reis; http://www.bocc.ubi.pt/pag/bocc-documentario-reis.pdf)


Curiosidades
- "A Pessoa é para o que Nasce" foi, inicialmente, um curta-metragem de 6 minutos que percorreu vários festivais do Brasil e do mundo.

- Filme de estréia de Roberto Berliner como diretor de longa-metragens.

- Em 1997, durante as filmagens da série de TV "Som da Rua", sobre músicos anônimos, o diretor Roberto Berliner conheceu as irmãs Regina, Maria e Conceição. Elas já não cantavam mais nas ruas nem possuíam mais os ganzás, sem os quais não se sentiam à vontade para cantar. Enquanto a produção providenciava novos instrumentos, a equipe teve oportunidade de conversar longamente com as três. A filmagem para o programa foi realizada, mas Roberto deixou o set tão impressionado com o que viu e ouviu que decidiu que as três ceguinhas seriam o tema de seu próximo filme.

- Alguns meses depois Roberto Berliner retornou ao Nordeste com o roteirista Maurício Lissovsky e uma câmera digital, para uma série entrevistas que serviriam de base para elaboração do roteiro. Com o apoio do Ministério da Cultura, este material de pesquisa serviu de base para a edição de um curta-metragem, que serviria ainda como laboratório de linguagem para uma obra de maior fôlego.

- A adaptação do curta-metragem para um longa levou 3 anos para ser concluída.

- Exibido na mostra Première Brasil, no Festival do Rio 2004.


 Trailler do Filme:
 
 

As Três irmãs
Nascidas numa família de camponeses sem terra, passaram a infância perambulando pelas cidades do Nordeste do Brasil, seguindo os passos do pai alcólotra que alugava-se como mão-de-obra temporária para os proprietários de terra da região. Para complementar a renda, a mãe dedicava-se ao artesanato e elas aprenderam a cantar nas feiras e nas portas das igrejas em troca de esmolas.
Após a morte do pai, a cantoria tornou-se a principal fonte de renda de uma família numerosa, e que não parava de crescer. Houve um momento em que as ceguinhas sustentavam, com seus míseros ganhos, 14 pessoas, entre irmãos e irmãs, um deles adotado, sobrinhos, a mãe e seu novo marido.

Maria Barbosa, a mais habiliadosa e autônoma das três irmãs, foi a única que casou. E por duas vezes, ambas com deficientes visuais, tendo ficado duas vezes viúva. O primeiro marido foi Manuel Traquiline, violeiro e cantador, que passou a apresentar-se com elas nas feiras. Tiveram uma filha, Maria Dalva, que nasceu em 1989. Após o nascimento da filha, Maria foi viver com o marido em Natal, no Rio Grande do Norte. Foi o único período de suas vidas em que as irmãs estiveram separadas. Quando a filha já tinha completado cinco anos, Manuel morreu e Maria voltou para junto de suas irmãs, em Campina Grande. Lá conheceu Silvestre, o grande amor de sua vida com quem viveu dois anos, até o marido ser assassinado a facadas.

Quando a equipe da Tv Zero entrou em contato com As Três Ceguinhas pela primeira vez, em 1997, elas viviam praticamente sós, em uma pequena casa numa vila em Campina Grande, na Paraíba. A mãe delas tinha morrido há cerca de seis meses e Silvestre estava morto há menos de quatro. A filha de Maria estava em poder de umas tias distantes que se recusavam a devolver a filha para a mãe. O que aconteceu deste momento em diante está no filme.

"Atirei no mar, o mar vazou. Atirei na moreninha, baleei o meu amor" 



Em cartaz: "A Pessoa é Para o que Nasce"
Dia: 12/05/11 (quinta feira)
Hora: 20h
Local: Bar do Pantera
R. Cel. Olímpio Cunha, Campo Grande, Cariacica - ES
(Próximo a BR 262, em frente ao Café Praça 8)

ENTRADA FRANCA!

Assista o curta que originou o filme:

Milson Henriques

Li a matéria sobre o Milson Henriques que saiu no caderno Pensar do dia 07/04/2011 de A Gazeta, me interessei ainda mais pela vida dele e, pesquisando, achei essa matéria que saiu no site da ABD Capixaba no dia 09/03/2010.

Vou postar aqui na íntegra como homenagem e por achar que a própria vida dele daria um ótimo filme:

Geração 60 e o movimento do cinema amador (por Milson Henriques)

1964. Minha vida estava tão ou mais perturbada que a vida política do Brasil. Estava com 26 anos, havia fugido da casa paterna aos 14, depois de uma infância sem televisão, e isso significa que tinha a vivência de um atual menino de nove anos. Apesar da pouca idade, já era ateu (uma das causas da fuga) e perturbado. Vivi péssima e lindamente a juventude em Copacabana, quando o Rio era uma cidade maravilhosa. Aos 22 anos, dei uma de filho pródigo para os pais que nem sabiam se eu ainda existia. Não agüentei o “lar”. Fui para Salvador, depois para Belo Horizonte, Brasília, Salvador novamente. Pintou a revolução militar… vou fugir para o Uruguai, vou descendo de ônibus até o Rio Grande do Sul, mas a grana só deu para chegar até Vitória. O jeito é trabalhar um pouco para conseguir o dinheiro da passagem e prosseguir. E estou aqui até hoje.
Todo esse intróito – ainda se usa essa palavra? –  sobre a minha vida é para mostrar o caminho percorrido, sempre pela esquerda, como ia a minha cabeça e minha vivência ao chegar a essa Ilha, na época muito mais provinciana. Já era uma puta velha vivida em grandes metrópoles, sofrida, fodida, mal paga, em busca do que não sei até hoje. Triste, mas feliz.
Logicamente atraído por tudo que é gauche, me enturmei logo com a esquerda: universitários, jornalistas, artistas, intelectuais, bebuns, viciados em tudo, principalmente em cultura. Fui muito bem recebido e me senti em casa, mais feliz que um pintinho ciscando num monte de lixo – no bom sentido. O primeiro que conheci foi Osvaldo Oleari, que me apresentou a Xerxes Gusmão Neto, que me apresentou a Darly Santos (hoje rodovia), que me apresentou a Antonio Carlos Neves, que me apresentou a Cláudio Lachini, que me apresentou a Zélia Stein. E, assim, fui conhecendo aqueles jovens maravilhosos que bebiam a vida com sofreguidão, que eram respeitados intelectualmente pela cidade, mas rejeitados pelas “mães de família”. Aquela velha história – “são pessoas muito inteligentes, “et pour cause” são perigosas, “não quero meu filho andando com eles”. Logicamente passei orgulhosamente a fazer parte da “corja comunista de maconheiros, ateus, hippies, cabeludos, pederastas e etcéteras”, como éramos conhecidos pelos hilários censores da Polícia Federal…
Toninho Neves, este meu pequeno grande herói, estava com dificuldades de encontrar atores para montar uma peça que havia escrito. Teatro, naquela época, era coisa de viado. Lógico que me ofereci e fui aprovado por um Toninho meio desconfiado já que, ao mesmo tempo, eu era barítono do coral da catedral de Vitória (??? sic). Começaram os ensaios, a peça foi proibida. Outra tentativa, outra proibição… Escolha de novo texto. Proibido outra vez… Enquanto não se resolvia o impasse teatral, Toninho tentava também filmar alguns curtas.

 

Ele e os colegas da época que me desculpem, mas nunca imaginei um dia escrever sobre aqueles acontecimentos. Por isso, na memória deste ancião que vos escreve, aparecem flashes confusos, imprecisos, sem data certa, principalmente por conta da “marvada pinga”, da “cannabis”, além da embriagues da própria arte. Lembro que o primeiro filme que tentamos, Toninho dirigindo e eu como ator, a primeira cena seria um close no meu rosto, deitado na cama dando uma tragada e jogando fumaça direto na câmera que lentamente se afastava. Só que nunca soube fumar cigarro normal, essa droga lícita e, toda vez que tentava, era um tremendo acesso de tosse. A tentativa de filmagem foi num casarão lindo, ao lado da Igreja do Rosário.  Não lembro mais nada. Nem o nome do filme. Só sei que nunca foi terminado. Outro flashe: fomos filmar Boa sorte, palhaço! Tinha uma cena em que eu descia a Rua Sete (na época, a mais badalada e chic da cidade), andando com um pé no meio fio e outro na rua, e me encontrava com a linda Zélia Stein para um abraço e beijo. Assim que começamos a montar os equipamentos, começou a juntar gente. Na hora do ensaio já existia umas 100 pessoas de olhos pregados naqueles seres estranhos, com roupas estranhas obedecendo a ordens de um garoto que gritava: “Repete! Chega mais perto dela! Volta! Devagar! Alguém retoca a maquiagem no rosto da Zélia que está brilhando! No Milson também. Ele está suando… Limpa! Vamos! Ação! Espere, uma nuvem cobriu o sol! Milson, na hora do beijo você fica com os dois pés na rua, a Zélia na calçada! Repete! Vira menos a cabeça! Agora! Espere, passou um carro! Silêncio, vamos gravar! Olha a brincadeira, alguém jogou um pedaço de papel! Peraí, assim não dá. Vamos colaborar gente!”. Mas não adiantou. Começaram a gritar piadinhas, os meninos de rua a rir e a fazer bagunça, agitação… Jogaram um pedaço de papelão na minha cabeça, até que Toninho se estressou: “Não dá para continuar assim. Vamos parar e esperar o pessoal sair”. Mas quem disse que o povo arredou o pé? Não lembro se foi também por causa da censura, ou outro imprevisto, mas o palhaço não teve boa sorte. Mas o Toninho nunca desistia. Outra tentativa… Se não me engano, o nome profético do filme era No meio do caminho.
Fomos filmar no meio da escadaria da igreja de Campinho de Santa Isabel, aquela cidadezinha pacata antes de Domingos Martins. Eu fazia um jagunço que, de rifle em punho, dava um tiro no padre, papel representado por Cláudio Lachini que, ferido, caía e rolava pela escadaria. Uma tomada difícil, porque teria de cair de maneira que não machucasse, e de forma estética. Mais uma vez, cercado de curiosos, os habitantes da cidade – quase todos ali vendo aquela loucura – sem entender direito, embora Toninho tenha tentado explicar. Vamos ao primeiro ensaio: Lachini caiu, de maneira ridícula, com medo. Além disso, a batina veio parar nas coxas. Vamos repetir… Outra queda, Lachini machucou o joelho e gritou. Pausa. Repetindo… Na queda seguinte, com medo, ele amparou o corpo com as duas mãos. Repete. Já com as mãos e joelhos ralados, caiu legal, mas um sapato saiu do pé, ficou cômico. Começamos a rir. Lachini já puto da vida, caiu outra vez, a batina veio parar literalmente na cabeça. A risada redobrou, menos a de Toninho que estava nervoso, quase explodindo, principalmente porque o rolo do filme, que era caríssimo, estava acabando. Mais uma: Lachini cai e diz um palavrão. Mais risos… Toninho uma pilha: “Agora, vamos, saia como sair! Agora vai dar certo!” Foi quando apareceu uma senhora, beatíssima gritando histericamente: “Chega de zombar de nossa igreja! Isso é uma blasfêmia! Um bando de moleques. Vieram de Vitória para fazer bagunça aqui, para rir da gente! Chega dessa palhaçada! Para despertar meu Jesus Cristinho só passando por cima do meu cadáver!” E começou a insuflar a população contra a nossa equipe apavorada. Resumindo: reunimos rapidamente tudo na Kombi, entramos de qualquer maneira e saímos em desabalada,  já ouvindo o som de pedras batendo na lataria. E fomos em busca de outra cidadezinha com outra igreja, mas acabou ficando tudo no meio do caminho mesmo.
Dos filmes que fiz como ator com Toninho, finalmente conseguimos terminar Alto a la agression!. Eu fazia o papel de um estudante logicamente engajado na esquerda e tinha como namorada Silvia Renata Cohen. O Caderno B do Jornal do Brasil fazia anualmente um Festival Nacional de Curtas e, para nossa alegria e recompensa de tantos esforços, fomos semifinalistas. O movimento dos curtas-metragens aumentava cada vez mais com muitos jovens “cabeças” envolvidos. Lembro de Luis Lages, Rubens Azeredo, Ewerton Guimarães, o mais que presente Ramón Alvarado e, principalmente, Paulo Eduardo Torre (Luiz Tadeu Teixeira era muito jovem. Apareceu depois). Na época do auge da Rádio Nacional existia uma “rivalidade” entre Marlene e Emilinha Borba. Entre nossos cineastas, a rivalidade era entre Toninho e Paulo. Mas uma rivalidade sadia em que um colaborava quando o outro precisasse. Tanto que a cena do filme em que eu era torturado no “pau de arara” e levava uma porrada na cara, filmado na casa de Toninho, a mão que me batia era a de Paulo. Assim como Toninho tinha Zélia Stein, musa loura que participava da maioria de seus filmes, o Paulo tinha uma namorada também loura e magra, a bela Marlene Simonetti.

Para o jovem de hoje, parece um pouco estranho o teor dos filmes daquela época, em sua maioria de protesto e muito inspirados nos filmes noir franceses, da nouvelle vague ou do neo-realismo italiano. Nunca! Nada que lembrasse o cinema americano. Era também uma forma de protesto, seja na música, no teatro, em qualquer manifestação artística. Vivíamos em plena ditadura militar e filme era coisa muito cara. O sujeito tinha que ser muito pirado, muito louco para se meter nessa que, além de ser perigosa, politicamente era uma empreitada sem futuro, sem recompensa financeira, apenas o prazer da realização que, afinal, é o que importa na vida. Se bem que, hoje reconheço, a ditadura tinha seu lado digamos “bom”, que era obrigar a juventude  a sair da alienação, pensar e reagir.
Desde 1967 eu tinha uma página inteira dominical de humor no jornal A Tribuna. Era mais deboche e provocação ao pessoal da ditadura. Tanto que fui em cana 12 vezes por causa de notas e alguns artigos. Antes de mais nada tinha a preocupação de apoiar qualquer manifestação de arte. Foi assim que, no dia 3 de dezembro de 1967, às 10 horas da manhã, competindo com o sol e a praia, consegui colocar no cinema Jandaia, cedido por Marcelo Abaurre, mais de 200 pessoas ao realizar o “I Festival de Cinema Amador Capixaba” (depois, por meio da mesma página, que se chamava Jornaleco, realizei um Festival de Teatro Amador Capixaba e cinco festivais de música). Dos nove filmes exibidos, sete tiveram a participação de Ramón Alvarado e outro era um documentário feito pelo pai dele, Luiz Gonzáles Batan, com imagens da cidade de Vitória de 1938. Outra curiosidade foi um documentário científico, a cores, mostrando a primeira operação de coração feita no Espírito Santo. O mais importante é que a moça operada estava presente e viu o filme pela primeira vez. No final, quando chamei Ramón ao palco para lhe entregar um troféu – que desejei fosse o primeiro dos muitos que viriam – ele foi aplaudido de pé. Vejam a lista dos nove filmes apresentados:

Indecisão: direção de Ramón Alvarado e fotografia de Rubens Freitas Rocha. Intérpretes: Cláudio Lachini, Miriam Calmon, Luís Manoel, Nalim, Zélia Stein (1966).
O Cristo e o Cristo: documentário de Ramón Alvarado sobre a Festa da Penha (1966).
Palladium: direção de Luiz Eduardo Lages e fotografia de Ramón Alvarado. Intérpretes: Elizabeth Galdino e Luiz Eduardo Lages (1966).
Automobilismo: documentário colorido de Rubens Freitas Rocha (1966).
Kaput: direção de Paulo Eduardo Torre e fotografia de Ramón Alvarado. Intérpretes: Rubens Azevedo, Marlene Simonetti e Ewerton Guimarães (1967).
Cirurgia do Coração no Espírito Santo: documentário científico colorido, de Ramón Alvarado (1967).
O pêndulo: direção e fotografia de Ramón Alvarado. Intérpretes: Zélia Stein e Carlos Chenier (1967).
Alto a la agression!: direção de Antônio Carlos Neves e fotografia de Ramón Alvarado. Intérpretes: Sílvia Renata Cohen, Milson Henriques, Alberto Cristóvão e Raimundo Oliveira (1967).
Vitória 1938: Documentário de Luiz Gonzáles Batan (pai de Ramón) mostrando aspectos da vitória no ano do título (1938).

Além desses nove, ainda fazem parte do I Ciclo Cinematográfico Capixaba (1965-69), a chamada “época de ouro” do nosso cinema amador, filmes de 16 mm, preto e branco, em celulose realizados de forma quase artesanal. São os seguintes:
A queda: direção de Paulo Eduardo Torre e fotografia de Ramón Alvarado. Intérpretes: Marlene Simonetti (aqui estou em dúvida se foi com Ewerton Guimarães ou Rubens Azevedo). (1966)
Boa sorte, palhaço!: direção de Antônio Carlos Neves e fotografia de Ramón Alvarado. Alguém me disse que o filme foi finalmente terminado, mas nunca perguntei a Toninho. Por isso, não sei os atores (1967)
Veia partida: direção de Antônio Carlos Neves e fotografia de Ramón Alvarado (prêmio de melhor fotografia no festival de Cinema do Jornal do Brasil/Mesbla, de 1968). Intérprete: Rubens Azevedo.
Primeira revolta: direção de Luiz Eduardo Lages. Não sei mais nada sobre esse filme. Quem me falou com entusiasmo sobre ele foi Paulo Eduardo Torre, mas nunca assisti nem sei o elenco.
Ponto e vírgula: direção de Luiz Tadeu Teixeira. Intérpretes: Luiz Tadeu Teixeira e Milson Henriques (1969).
Variações para um tema de Maiakovski: direção de Luiz Tadeu Teixeira. Também não assisti e desconheço a ficha técnica (1971).

São 15 filmes, em sua maioria, realizados por jovens entusiastas, num tempo em que a censura era cruel, numa cidade que não tem o vício da cultura (até hoje), motivados pela famosa frase de Glauber Rocha: “Fazer cinema é uma câmera na mão e uma (boa) idéia na cabeça”, e procurando desmistificar o cinema como uma indústria de diversão alienante.
No começo dos anos 70 Toninho Neves foi complementar seus estudos sobre cinema na União Soviética (ele havia completado um curso de cinema em Brasília), Paulo Torre Ramón e Rubens Azeredo (que nunca mais vi) foram para o Rio de Janeiro, e o ainda garoto Luiz Tadeu Teixeira virou editor do segundo caderno de A Gazeta, embora fosse o provável sucessor dos que foram embora, porque começou a filmar e a fazer teatro. Só que fizemos juntos peça Mordaça e ganhamos como prêmio, oferecido pela Fundação Cultural do Espírito Santo, cursos de teatro no Rio de Janeiro. Tadeu largou tudo e foi para o Rio, só voltando anos depois. Luiz Lages, não sei para onde foi. Da turma “antiga” só eu fiquei por aqui.
Aí, chegaram os anos 70. Como dinheiro é coisa que nunca tive, nem faço questão, nunca ousei dirigir filmes. Preferi fazer shows, peças de teatro com universitários, menos complicado e dispendioso. Continuei a cantar em coral, escrever e desenhar em jornal e visitar periodicamente – como convidado ou intimado – a Polícia Federal.
Apesar dessa última parte, que saudade daquele tempo!…

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Absurdos...

Após fechamento do Belas Artes, livreiros reclamam de abandono

Proprietário diz que não mudará fachada devido a processo de tombamento.
Vendedores de livros dizem que movimento caiu em galeria.

 A esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação não é mais a mesma depois do fechamento do tradicional cinema Belas Artes, que por 68 anos atraiu cinéfilos para a região. A fachada do edifício onde o Belas Artes funcionava está repleta de pichações. Lonas brancas e sacos plásticos pretos colocados atrás dos vidros na entrada escondem o acesso às salas. Moradores de rua aproveitam a falta de atividades para dormir no local.
E não são apenas os amantes da sétima arte que lamentam o fim das atividades do cinema. Livreiros que trabalham na passagem subterrânea da Consolação, logo abaixo do antigo cinema, também sentiram uma redução importante no movimento na região – principalmente aos fins de semana.

“Não tem mais atrativo para essa região: não há bares, lojas, livrarias. Era o cinema que impulsionava a venda de livros. Agora, as vendas de fim de semana são quase nulas. Se for calcular o quanto caiu, a gente vai chorar”, disse a livreira Cristina Pereira. “Onde era o cinema virou moradia de mendigo. Quem vai vir para cá fora drogados e moradores de rua?”

A livreira Odete Machado, de 40 anos, que trabalha há quase seis anos na galeria, também notou uma queda no número de frequentadores da galeria. “No fim de semana, fica tudo meio apagado. É bem triste. Somos obrigados a fechar mais cedo. Agora, no sábado, por volta das 21h nós já encerramos o atendimento”, disse.
 
  O processo de tombamento do edifício onde funcionava o Cine Belas Artes começará a ser discutido na próxima reunião do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), que acontece na terça-feira (10).

Segundo a Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo, o tombamento refere-se apenas à estrutura física do edifício. O uso do imóvel fica a critério do proprietário. Segundo o advogado do proprietário do imóvel, Fábio Luchesi Filho, o prédio, ao contrário do que afirmam os livreiros, não está abandonado. “Ele está cuidado. Mas há um impedimento legal quanto às providências em relação à fachada. Por cautela, o proprietário não procederá com qualquer mudança”, disse, referindo-se ao processo de tombamento.

Fonte: G1.com